Todas as Poesias
O Apanhador de Desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse sossego de animal grande.
As coisas que não levam a nada
têm grande importância para mim.
Usamos a palavra para compor os nossos silêncios.
Eu não preciso do fim
para chegar.
— Manoel de Barros