Coleção Literária

Poesias que transcendem o tempo

Uma curadoria de 150 poemas dos maiores poetas da literatura universal — de Drummond a Fernando Pessoa, de Cecília Meireles a Florbela Espanca.

No Meio do Caminho

Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra

Canção do Exílio

Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,

Soneto de Fidelidade

Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto

Poema de Sete Faces

Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

Amor É Fogo Que Arde Sem Se Ver

Luís de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,

José

Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,

Vozes d'África

Castro Alves

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?

Meus Oito Anos

Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida

Motivo

Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:

A Rosa de Hiroshima

Vinicius de Moraes

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas

Soneto de Separação

Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma

Retrato

Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,

O Navio Negreiro (trecho)

Castro Alves

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — Loss doce companheiro
E as vagas após as vagas vêm sem fim...

Viagem

Cecília Meireles

Ó grandes oportunidades
que não me serviram de nada!

Eu Sei Que Vou Te Amar

Vinicius de Moraes

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar

O Bicho

Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero

Morte e Vida Severina (trecho)

João Cabral de Melo Neto

— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,

Presença

Mário Quintana

Ela entrou, fez a vida mais bonita
Ela saiu, deixou a sala vazia
Os seus passos na escada eu ouvia

Quadrilha

Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

O Último Poema

Manuel Bandeira

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Cântico Negro

José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse

Poema em Linha Reta

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Tabacaria (trecho)

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.

Autopsicografia

Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor

Mar Português

Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Liberdade

Fernando Pessoa

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler

A Estrela

Manuel Bandeira

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo

Tecendo a Manhã

João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele

Meus Sonhos

Álvares de Azevedo

Eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida...
Já lhe roubou a paz, já lhe roubou o sono,

O Corvo (tradução de Machado de Assis)

Edgar Allan Poe (trad. Machado de Assis)

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite, fatigado,
Sobre uma velha história, em um volume raro e fado,
E, enquanto eu cochilava, quase adormecido, perto,

Romanceiro da Inconfidência (trecho)

Cecília Meireles

Liberdade — essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,

Ou Isto ou Aquilo

Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Sentimento do Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,

Poema Sujo (trecho)

Ferreira Gullar

Meu corpo
que deitado na cama wood
vejo como parte remota do mundo,

Os Estatutos do Homem (trecho)

Thiago de Mello

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,

Poema Enjoadinho

Vinicius de Moraes

Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos

Pneumotórax

Manuel Bandeira

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Soneto

Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...

Ser Poeta

Florbela Espanca

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja

Soneto do Amigo

Vinicius de Moraes

Enfim, depois de tanto erro passado
Tanta retaliação, tanto perigo
Eis que chega este poeta triste e amigo

Convite

José Paulo Paes

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca

Cidadezinha Qualquer

Carlos Drummond de Andrade

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Das Utopias

Mário Quintana

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora

O Apanhador de Desperdícios

Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.

Retrato do Artista Quando Coisa

Manoel de Barros

Eu tinha vontade de fazer como os dois homens
que vi sentados na terra escovando osso.
No começo achei que aqueles homens

A um Poeta

Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Benedictino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciente solição,

Profundamente

Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor

A Paixão Medida

Carlos Drummond de Andrade

Já não posso sofrer cometa, Nem a estrela
Que sempre me atormenta
Nem o sol que se vem

Ismália

Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,

A Flor e a Náusea

Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Confidência do Itabirano

Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.

Procura da Poesia

Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,

Soneto de Agosto

Vinicius de Moraes

Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um amor,
É, de paixões ter minha alma repleta,

Poema de Natal

Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar

Elegia 1938

Carlos Drummond de Andrade

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,

Soneto da Perdida Esperança

Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,

Alma Minha Gentil, Que Te Partiste

Luís de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,

Os Lusíadas — Canto I (trecho)

Luís de Camões

As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados

O Guardador de Rebanhos — I

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,

O Guardador de Rebanhos — V

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Mensagem — O Infante (trecho)

Fernando Pessoa

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.

Isto

Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto

Todas as Cartas de Amor São Ridículas

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem

Lisbon Revisited (1923) — trecho

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Aniversário

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

Ode Marítima (trecho)

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,

O Menino de Sua Mãe

Fernando Pessoa

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado

Chuva Oblíqua — I

Fernando Pessoa

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra

O Eu Profundo e os Outros Eus

Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

A Ceifeira

Fernando Pessoa

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

Oração de São Francisco (versão poética)

São Francisco de Assis

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;

O Monstrengo

Fernando Pessoa

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,

Os Sapos

Manuel Bandeira

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.

Evocação do Recife

Manuel Bandeira

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais

Testamento

Manuel Bandeira

O que não tenho e desejo
É que me faz falta.
O que não tenho e não desejo

Desencanto

Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora

Momento num Café

Manuel Bandeira

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente

Solilóquio

Cecília Meireles

Meus aqueles olhos com que via!
Meus aqueles ouvidos que escutavam!
Meus aqueles enleios que teciam

Reinvenção

Cecília Meireles

A vida só é possível
reinventada.

Assovio

Cecília Meireles

Ninguém abra a sua porta
para ver o que aconteceu:
para ver o que aconteceu

Romance LXXXIV ou da Bandeira da Inconfidência

Cecília Meireles

Tiram os panos da sala,
trazem outros de brocado,
armam os arcos de flores,

Amor — Feroz

Cecília Meireles

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero

Legado

Mário Quintana

Que importa que uns tantos neguem
e outros tantos esqueçam?
O poeta não é dos que leram,

Poeminha do Contra

Mário Quintana

Todos estes que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...

Emergência

Mário Quintana

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estavas sufocado.
O melo é abrir janelas.

Da Quietude

Mário Quintana

Não nos deixemos destruir pela tristeza!
Vem, que achas nos olhos meus?
Nuvens apenas! Nuvens que passam!

O Tempo

Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!

Recordo Ainda

Mário Quintana

Recordo ainda... E nada mais me importa.
Aquela janela aberta para a rua
por onde entrava a lua...

A Ingaia Ciência

Mário de Sá-Carneiro

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio

Dispersão

Mário de Sá-Carneiro

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,

Quási

Mário de Sá-Carneiro

Um pouco mais de sol — eu era brasa,
Um pouco mais de azul — eu era além!
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Soneto já da Despedida

Mário de Sá-Carneiro

Eu não sei descrer do sonho,
Nem posso trair a vida.
Sou um doido harmonioso

Ouvir Estrelas (Via Láctea — XIII)

Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto

Língua Portuguesa

Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura

Se Se Morre de Amor

Gonçalves Dias

Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é longo o penar, grande o tormento!
Não se morre de amor, que este sustento

I-Juca-Pirama (trecho)

Gonçalves Dias

No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — Loss Loss cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d'altiva nação;

Leito de Folhas Verdes

Gonçalves Dias

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da maloca soou o fim do dia,

Lira dos Vinte Anos — Se Eu Morresse Amanhã

Álvares de Azevedo

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria

Lembrança de Morrer

Álvares de Azevedo

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima

Boa Noite

Castro Alves

Boa noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde...

Onde o Céu É Mais Azul

Castro Alves

Onde o céu é mais azul,
Onde o mar é mais azul,
Onde as estrelas cintilam como ninguém,

Todas as Vidas

Cora Coralina

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,

Oferenda

Cora Coralina

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.

Minha Cidade

Cora Coralina

Goiás, minha cidade...
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,

Poema das Mãos

Cora Coralina

As mais lindas mãos do mundo
são as que estão marcadas
pelo suor do trabalho.

Traduzir-se

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:

Não Há Vagas

Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz

Agosto 1964

Ferreira Gullar

Entre lojas de flores e de sapatos, barbearias,
bazares, mercados, butiques,
entre achados e perdidos:

Contagem

Ana Cristina Cesar

Fico pensando no que eu perco:
dias a fio da minha vida
que eu perco.

Resumo

Ana Cristina Cesar

Estou presa na grade,
nas letras, na cama,
no meu nome.

Cogito

Augusto dos Anjos

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — essa pantera —

Psicologia de um Vencido

Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sufoco, com a minha própria substância,

Budismo Moderno

Augusto dos Anjos

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa

O Rio (trecho)

João Cabral de Melo Neto

Eu sou apenas um rio,
caminhando para o mar.
Quem sou eu para ser grande?

Os Três Mal-Amados (trecho)

João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia,
meu endereço.

A Educação pela Pedra

João Cabral de Melo Neto

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal

Morte e Vida Severina — Natal (trecho)

João Cabral de Melo Neto

— E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,

Poema Transitório

Ferreira Gullar

Eu me recuso a acreditar
que a vida é apenas
esta bela

Poema Obsceno

Ferreira Gullar

Façam a revolução!
mas depois da revolução
que façam a poesia.

Poema do Beco

Manuel Bandeira

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.

A Onda

Manuel Bandeira

a onda
a onda anda
aonde anda

Última Canção do Beco

Manuel Bandeira

Beco que cantei num dístico
Os cem (sim, cem!) metros de comprido
Por uns del Rey de largo

Retrato Natural

Manoel de Barros

Aos blocos de substantivos muitos adjetivos
acrescento,
por gosto de enfeitamento.

Matéria de Poesia

Manoel de Barros

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia.

O Livro Sobre Nada (trecho)

Manoel de Barros

É preciso não saber o que os outros sabem.
Tenho abundância de não saber.
Meu vizinho é um artista:

De Menino de Engenho

Manoel de Barros

Eu tinha mais certezas do que as verminoses:
certeza de que o sabiá cantava para mim,
certeza de que os vagalumes acendiam para mim,

Espumas Flutuantes — Adeus

Castro Alves

Adeus! Eu parto chorar!
Adeus! Lá longe, bem longe,
Onde o destino me atira,

Versos a Um Cego

Fagundes Varela

Passa o cego na rua solitária,
Batendo a sua bengala no chão triste.
Gente que passa não repara nele.

Juvenília

Fagundes Varela

Cantar, louvar e abençoar!
Viver é apenas isso.
O céu é azul toda manhã

Meus Oito Anos (versão romântica)

Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida

Amor e Medo

Casimiro de Abreu

Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando em meio:

Canção de Outono

Camilo Pessanha

Chorai, arcadas
Do fim do dia,
Folhas das acácias

Boi Morto

Carlos Drummond de Andrade

Como em turvas águas de enchente,
me sinto arrastar por wood wood correntezas,
no rio que me leva

Resíduo

Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa

O Caso do Vestido (trecho)

Carlos Drummond de Andrade

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele armário?
— Minhas filhas, aquele

Perguntas em Forma de Cavalo-Marinho

Carlos Drummond de Andrade

Por que não respondem
minhas perguntas?
São tão claras, tão evidentes,

Receita de Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
algo na cor do seu desejo.

Da Amizade

Carlos Drummond de Andrade

É tão suave a amizade,
tão completa em si mesma,
que todo afago do mundo

Lição de Coisas

Carlos Drummond de Andrade

A vida bate, não espera.
Vai ensinando pelo avesso.
Não dá lição. Dá laço, cerco,

A Garota de Ipanema (poema original)

Vinicius de Moraes

Olha que coisa mais linda
mais cheia de graça
É ela menina

Receita de Mulher

Vinicius de Moraes

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso

O Haver

Vinicius de Moraes

Quero a ilusão grande da vida,
Quero que a carne seja firme e a alma profunda.

Via Láctea — Soneto X

Olavo Bilac

"Mal te vejo e começo a amar-te: o Amor atira
Dos teus lábios aos meus, dos meus aos teus. É o caminho.
E o teu olhar espelha a Via Láctea inteira;

Não Sei Quantas Almas Tenho

Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.

Quando Eu Morrer (Depois de Mim)

Mário Quintana

Quando eu morrer
não me mandem flores.
Basta pra mim

Quintanares

Mário Quintana

O passado não reconhece o seu lugar:
está sempre presente.
O futuro também,

Soneto de Natal

Vinícius de Moraes

Para a noite de Natal
A minha adesão.
É a noite mais bonita,

Canção do Vento e da Minha Vida

Manuel Bandeira

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...