Todas as Poesias
Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sufoco, com a minha própria substância,
O soluço que sobe do meu estômago.
Já o verme — esse operário de ruínas —
Que o sangue podre das carpas traga,
Comedendo voraz minhas entranhas,
Mostra a nossa lassidão divina.
Ah! Um dia todo homem se espanta
E ouve um ai dentro dele que canta
Uma canção mais triste que saudade:
É o réquiem da carne sobre a terra,
O hino da matéria que se encerra
No grande ventre azul da eternidade!
— Augusto dos Anjos